Tecelagem

Fios cruzados que formam o pano

Data
c. 6.700 a.C.
Época
Pré-história
Etapa
II Fixação
Dificuldade

Prancha

Legenda
  1. 1Órgão superior
  2. 2Pano tecido
  3. 3Vara dos liços
  4. 4Vara de separação
  5. 5Fios da teia
  6. 6Pesos de tear
  7. 7Trama na cala aberta

Anatomia

×6
A trama: no novelo, na cala e no panoFios da teia, liços e vara dos liçosFaces cortadas, tracejadasOs 6 cm do lado direito de uma teia de 60 cm, logo abaixo do pano, cortada à esquerda ao longo de um fio. Um fio em cada dois passa à frente da vara de separação, mais abaixo e fora da imagem, e afasta-se cerca de 1 em cada 5; os outros caem a prumo para os pesos, e o espaço entre as duas camadas é a cala natural. Um liço de cordel prende cada fio de trás à vara dos liços. Puxada para os suportes, a 8,6 cm da camada de trás, a vara traz os fios de trás uns 2,7 cm para a frente dos outros e abre a contracala. Cada passagem segue o ciclo da prancha: o novelo atravessa a cala aberta 6 cm abaixo do pano, a trama é deitada num arco com 3 cm de flecha ao meio, a espada chata entra por baixo e bate-a para cima, e muda-se a cala. As camadas trocam de lado a cada passagem, e assim cada trama fica por cima de um fio e por baixo do seguinte. É o tafetá, aqui com 6 fios da teia e 10 passagens por centímetro: cada passagem faz descer a borda do pano 1 mm. A lupa amplia o corte 6 vezes. A flecha do arco vem de ensaios de tecelagem do Centre for Textile Research de Copenhaga; as distâncias entre as varas são uma escolha do modelo.

Tecer é fazer pano passando um fio, a trama, por cima e por baixo de um conjunto de fios esticados, a teia, passagem após passagem. O tear mantém a teia tensa e abre-a para que a trama a atravesse de uma só vez; o tear de pesos aqui desenhado remonta ao Neolítico e durou no norte da Europa até à Idade Média; ainda sobrevive em alguns lugares.

O que é

Tecer é fazer pano com dois conjuntos de fios cruzados em ângulo reto. A teia vai esticada ao comprido numa armação, o tear. A trama atravessa-a. No ponto mais simples, o tafetá, passa por cima de um fio e por baixo do seguinte, e cada nova passagem faz o contrário. O atrito chega para segurar os cruzamentos, por isso o pano dispensa cola e nós e continua maleável.

Muito antes de tecer já se torciam cordas e se entrançavam esteiras. O tear mantém centenas de fios com a mesma tensão e levanta todo um grupo deles de uma vez, e assim a trama percorre toda a largura num só movimento em vez de ser passada à mão por cima e por baixo de cada fio.

A prancha mostra um tear de pesos, usado no Próximo Oriente e na Europa desde o Neolítico, e no norte da Europa até à Idade Média: dois prumos encostam-se a uma parede, a teia pende de uma trave assente no topo e pesos de barro mantêm-na tensa.

Como funciona

A trama passa por uma abertura na teia, a cala, que neste tear é feita por duas varas. A vara de separação (4) está fixa em baixo, de um prumo ao outro. Um fio da teia em cada dois passa à frente dela e os restantes atrás. Como os prumos estão inclinados, os fios da frente saem para fora por cima da vara enquanto os de trás caem a prumo, e entre as duas camadas abre-se sozinho um espaço: a cala natural.

Um quadrado de tafetá visto à lupa: cada fio de trama passa por cima de um fio da teia e por baixo do seguinte, e a passagem seguinte ao contrário Tafetá: a cada passagem, a trama troca os fios da teia que cobre.

A vara dos liços (3) fica mais acima, à frente da teia. Uma laçada de cordel, o liço, liga-a a cada fio de trás. Quando a tecedeira puxa a vara para si e a pousa em suportes em forquilha presos aos prumos, os fios de trás passam para a frente dos outros e forma-se uma segunda abertura, a contracala. Passar a trama (7) pela cala e depois pela contracala dá o tafetá. Outras varas de liços, atadas a outros grupos de fios, permitem a sarja e os padrões.

Tece-se de cima para baixo. A tecedeira deita cada passagem num arco folgado, para não apertar as ourelas, e bate-a para cima contra o pano com os dedos, um pente ou uma espada de madeira chata. O pano acabado (2) pode enrolar-se no órgão superior (1), e o tear faz assim peças mais compridas do que a sua própria altura.

Cada peso (6) segura um feixe de fios da teia (5). Em ensaios do Centre for Textile Research de Copenhaga, o fio de lã fiado com um cossoiro de 4 g precisou de cerca de 13 g de tensão por fio, e um fio mais grosso, de um cossoiro de 8 g, de cerca de 19 g. Os pesos devem pender lado a lado e à mesma altura; caso contrário, enredam-se e gastam os fios.

Como construir

O grosso do trabalho vai para o fio: com seis fios de teia e dez passagens por centímetro, um metro quadrado de pano gasta pelo menos 1,6 km, mais os desperdícios e o comprimento que os fios gastam ao passar por cima e por baixo uns dos outros.

Fiar. Um fuso é um pau de cerca de 25 cm com um disco pesado, o cossoiro, perto de uma ponta. Põe-se a girar, deixa-se a torção subir pelas fibras puxadas de um punhado de lã ou de linho e enrola-se o fio quando o fuso se aproxima do chão. O fio da teia tem de ser resistente, porque aguenta os pesos.

Montar a armação. São precisos dois prumos direitos de cerca de 2 m, uma trave redonda que encaixa em entalhes no topo, uma vara de separação, uma vara dos liços e dois suportes em forquilha. Fazem-se alguns furos à volta de uma ponta do órgão: uma cavilha metida num deles e atada a um prumo impede-o de rodar, e tira-se para enrolar o pano. Encostam-se os prumos a uma parede sólida, ligeiramente inclinados, calçam-se os pés e prende-se o topo à parede ou a uma trave, para que o tear não venha para a frente quando se puxa a vara dos liços. A vara de separação e os suportes atam-se com firmeza aos prumos.

Fazer os pesos. Modelam-se anéis ou pirâmides de barro furados, deixam-se secar por completo, até deixarem de estar frios ao toque, e cozem-se num forno ou numa fogueira, por alguém com experiência; as pedras com um furo natural evitam a cozedura. Convém que pesem o mesmo; o habitual são algumas centenas de gramas cada um. É o fio que decide quantos fios leva cada peso: a cerca de 15 g por fio, um peso de 300 g segura uns vinte. Cada fila de pesos deve ter mais ou menos a largura da teia.

Urdir. Num pequeno tear de fitas ou com tabuinhas, tece-se uma fita estreita tão comprida quanto a largura do pano, fazendo sair a trama de um lado em laçadas tão compridas como a teia pretendida: essas laçadas serão a teia. Cose-se a fita ao órgão e deixam-se cair os fios. Passa-se um fio em cada dois por trás da vara de separação. Os fios da frente e os de trás atam-se a pesos diferentes, em feixes iguais, e penduram-se os pesos de cada fila lado a lado, à mesma altura. Depois ata-se um liço entre a vara dos liços e cada fio de trás. Para uma peça mais comprida do que o tear, enrola-se teia de reserva num pequeno novelo acima de cada peso e solta-se um pouco sempre que se enrola o pano.

Tecer. Passa-se a trama pela cala natural, logo abaixo da orla do pano, e bate-se. Leva-se a vara dos liços aos suportes, passa-se a trama de volta, bate-se outra vez e devolve-se a vara ao seu lugar. Para acabar, tece-se uma fita de remate ou atam-se as pontas da teia em franja.

Segurança. Carregado, o tear pesa sobretudo em cima: prenda-o a uma parede sólida, calce-lhe os pés e afaste as crianças. Um peso que cai pode partir um dedo do pé, por isso use calçado fechado. O barro húmido pode rebentar no fogo: coza apenas pesos bem secos, ao ar livre ou num forno ventilado, e mantenha-se bem afastado.

História e evolução

Achados arqueológicos: pesos de tear de barro em anel e em pirâmide, cossoiros de pedra e de barro, um fuso de madeira com fio e uma agulha de osso O pano raramente se conserva, as suas ferramentas sim: pesos de tear e cossoiros abundam nos sítios antigos.

Tecer talvez seja mais antigo do que a agricultura. Em Pavlov e Dolní Věstonice, na Morávia, fragmentos de barro cozido com mais de 26 000 anos guardam umas oitenta impressões que Olga Soffer e James Adovasio interpretam como cordéis, tecidos de trama torcida e tafetás de fibras vegetais. São impressões, não tecidos, e não se sabe se foram feitas num tear.

O tecido mais antigo conservado no Próximo Oriente e na Europa vem de Çatalhöyük, na Anatólia, de cerca de 6700-6500 a.C. É um tafetá que chegou até nós por ter sido carbonizado. Foi tido durante muito tempo por linho; em 2021 o microscópio encontrou líber de carvalho, a casca interior da árvore, em várias amostras, e outras estavam demasiado carbonizadas para se saber. É deste pano que vem a data que este catálogo dá à tecelagem: as impressões da Morávia são mais antigas, mas incertas.

Um tear de cintura: uma teia estreita esticada entre um poste e uma correia de couro, com vara dos liços, vara de separação e uma espada chata No tear de cintura, quem tece inclina-se para trás para esticar a teia e para a frente para a afrouxar.

Os pesos de barro, que sobrevivem à madeira, mostram o tear de pesos a espalhar-se pela Europa neolítica. Nas Américas tecia-se no tear de cintura, esticado entre uma árvore ou um poste e uma correia à volta da cintura de quem tece. O tear vertical de dois órgãos, representado em túmulos egípcios, chegou provavelmente à Europa vindo do Egito.

A partir do século XI ou XII, aproximadamente, o tear horizontal de pedais, que abre a cala com os pés, foi substituindo o tear de pesos na Europa, mais tarde nos países nórdicos. O tear de pesos continua em uso em Fitjar, no oeste da Noruega, e em Manndalen, no norte, onde tecedeiras sami o retomaram depois de 1945 para pesados cobertores de lã.


Escreva um nome, uma data, um material, um domínio…