Papel
Um suporte barato para a memória
Prancha
- 1Pilões que batem os trapos até os reduzir a pasta
- 2Tina de pasta
- 3Forma
- 4Armação
- 5Prensa de parafuso com uma posta de feltros e folhas
- 6Folhas penduradas a secar
Anatomia
O papel é uma fina camada de fibras vegetais, batidas em água, recolhidas numa peneira e secas até se ligarem umas às outras. Mais leve do que as tiras de bambu e mais barato do que a seda ou o pergaminho, levou a escrita e depois a imprensa da China dos Han ao resto do mundo.
O que é
O papel é uma folha de fibras vegetais separadas, misturadas em água e depositadas numa camada fina. Ao secar, a camada mantém-se unida sem cola. O papiro, pelo contrário, é feito de tiras da medula do papiro, uma planta aquática, prensadas em cruz, e o pergaminho é pele de animal.
Pode fazer-se até com desperdícios como trapos e redes de pesca gastas. Há cerca de dois mil anos que serve de suporte a escritos, impressos, dinheiro e mapas.
A prancha mostra o método manual europeu, usado até as máquinas o substituírem no século XIX.
Como funciona
A resistência do papel vem da celulose, a molécula comprida das paredes celulares vegetais. Batidas em água, as fibras incham e desfazem-se em fibrilas finas. Quando a camada húmida seca, a água aproxima as fibras e formam-se ligações de hidrogénio onde se tocam. A água desfá-las, e por isso o papel molhado se rasga tão facilmente.
Primeiro faz-se a pasta. Na China, a casca, o cânhamo e mais tarde o bambu eram demolhados, fervidos e pilados. Na Europa, os trapos de linho e cânhamo apodreciam algumas semanas e depois eram batidos em pias por pilões de madeira, levantados pelas cames do eixo de uma roda hidráulica.
Fios finos para as vergaturas, fios mais grossos para os pontusais e uma marca d’água cosida em arame.
A pasta é diluída numa tina de água até parecer leite ralo. O oficial da tina mergulha a forma, uma moldura de madeira com fios metálicos finos esticados, e retira-a na horizontal. Por cima assenta uma moldura solta, a armação, que define a margem da folha. Enquanto a água escorre, sacode a forma brevemente nos dois sentidos para que as fibras se cruzem e se entrelacem.
O deitador vira a forma sobre um feltro de lã, onde fica a folha húmida. Feltros e folhas empilham-se numa posta, que vai a uma prensa de parafuso para perder grande parte da água. Depois as folhas secam em cordas. Para escrever com pena e tinta, na Europa as folhas eram mergulhadas em gelatina animal; sem ela, a tinta alastra como num mata-borrão.
Como fabricar
Casca, cânhamo, trapos e redes velhas: os materiais citados no relatório de Cai Lun de 105.
Os trapos de algodão ou linho, o cânhamo e a casca interior da amoreira são as fibras mais fáceis. A madeira exige moagem mecânica ou cozedura química.
Preparar a fibra. Corte os trapos em pedaços pequenos. Deixe-os de molho vários dias e depois bata-os com um pilão ou um maço sobre uma pedra plana, até que uma pitada agitada num frasco de água se abra numa nuvem solta, sem fios. A casca é primeiro fervida algumas horas em água com cinza de lenha, numa panela de ferro ou de aço inoxidável (nunca de alumínio); depois enxagua-se até a água sair limpa e a fibra deixar de escorregar entre os dedos, e bate-se.
Fazer a forma e a armação. Construa duas molduras iguais de madeira de veio direito, do tamanho da folha pretendida. Sobre uma, estique uma tela fina: arame de latão, pano de trama muito apertada ou caules finos de bambu ou de erva atados lado a lado, como na Ásia. A moldura nua é a armação.
Formar a folha. Encha a tina de água e junte pasta até a água ficar turva. Segure juntas a forma e a armação, mergulhe-as pelo lado mais afastado, retire-as na horizontal e sacuda-as suavemente enquanto escorrem.
Deitar e prensar. Tire a armação, vire a forma para baixo sobre um feltro húmido e pressione as costas para que a folha fique no feltro. Ponha outro feltro por cima e repita. Prense a pilha entre tábuas com pesos ou numa prensa de parafuso.
Secar e colar. Pendure as folhas numa corda ou estenda-as com uma escova sobre uma tábua lisa. Para escrever a tinta, mergulhe as folhas secas em gelatina morna e diluída ou em goma de amido, e deixe-as secar outra vez.
Segurança. A lixívia de cinza queima a pele e os olhos: use luvas e óculos de proteção, e ferva as fibras ao ar livre. O chão à volta de uma tina está sempre molhado e escorregadio. Os pilões movidos a água e as prensas de parafuso podem esmagar os dedos, por isso, antes de meter a mão, desligue a roda, trave os pilões para que não possam cair e alivie a prensa.
História e evolução
Durante séculos, a invenção foi atribuída a Cai Lun, funcionário da corte dos Han Orientais, que em 105 d.C. apresentou ao imperador um método para fazer papel com casca, restos de cânhamo, trapos e redes de pesca. A arqueologia recuou a data: um fragmento com um mapa, encontrado num túmulo de Fangmatan (Gansu), data do século II a.C. Cai Lun terá provavelmente aperfeiçoado o processo e tornado o papel prático para a escrita.
O fabrico de papel chegou à Coreia, ao Vietname e, no início do século VII, ao Japão. Duvida-se de que prisioneiros chineses capturados em Talas em 751 o tenham levado para Samarcanda, porque ali já se usava papel antes. Do mundo islâmico, o ofício chegou a Espanha, onde Xàtiva já fabricava papel no século XII.
Na máquina de papel, a forma passou a ser uma tela metálica sem fim e a folha uma banda contínua.
No século XIII, os moinhos de Fabriano, em Itália, introduziram os pilões movidos a água, a colagem com gelatina e a marca d’água. Ulman Stromer fundou em 1390, em Nuremberga, o primeiro moinho de papel documentado em terras alemãs.
Em 1799, o francês Louis-Nicolas Robert patenteou uma máquina que formava o papel sobre uma tela metálica sem fim. Os irmãos Fourdrinier financiaram o seu desenvolvimento em Inglaterra, e as máquinas modernas mantêm a mesma disposição. Na década de 1840, Friedrich Gottlob Keller, na Saxónia, e Charles Fenerty, na Nova Escócia, mostraram que a madeira moída podia substituir os trapos. A pasta de madeira tornou o papel muito mais barato e ajudou os jornais a crescer, mas muito desse papel era ácido, e muitos livros do século XIX estão amarelos e quebradiços, enquanto o papel de trapo do século XV continua flexível.