Reidratação oral
Sal, açúcar e água contra a cólera
- 1Cama de cólera com o balde
- 2Saqueta de sais de reidratação oral
- 3Jarro de água potável
- 4Chávena e colher
- 5Vilosidades do intestino delgado
- 6Transportador de sódio e glicose numa célula da parede
A reidratação oral repõe a água e os sais perdidos na diarreia com uma bebida de água limpa, sais e glicose em proporções fixas, que o intestino continua a absorver mesmo durante a cólera. Comprovada em ensaios em Daca e Calcutá em 1968 e embalada em saquetas normalizadas desde os anos 1970, atribui-se-lhe a salvação de dezenas de milhões de crianças.
O que é
A diarreia mata porque seca o corpo. Na cólera, uma toxina faz a parede do intestino delgado despejar água e sais no tubo digestivo, e um adulto pode perder litros de fezes aquosas em poucas horas. O volume de sangue cai, os rins falham e, sem tratamento, a morte pode chegar no mesmo dia. Nas crianças, a maior parte das diarreias é mais ligeira, causada por vírus ou outras bactérias, mas ainda mata centenas de milhares delas por ano.
A reidratação oral repõe essas perdas pela boca. O doente bebe uma solução de água limpa, sal de cozinha, glicose, potássio e citrato, preparada a partir de uma saqueta de sais de reidratação oral (SRO). Não trava a diarreia; mantém o doente vivo enquanto o corpo vence a infeção.
A estampa mostra um acampamento de tratamento da cólera em Bengala no início dos anos 1970. Uma criança está deitada numa cama de cólera, cujo buraco e balde deixam as enfermeiras medir cada perda, enquanto a mãe lhe dá de beber por uma chávena. À direita, um corte da parede intestinal mostra porque é que o tratamento funciona.
Como funciona
O intestino delgado é forrado de vilosidades, minúsculas pregas em forma de dedo cobertas por uma única camada de células. Cada uma tem na membrana externa uma proteína que faz entrar juntos o sódio e a glicose: dois iões de sódio por cada molécula de glicose. Robert Crane propôs este acoplamento em Praga em 1960, e experiências com intestino de coelho confirmaram em 1964 que o açúcar arrasta a absorção de sódio. O cloreto segue o sódio, e a água segue os sais e o açúcar dissolvidos.
A toxina da cólera provoca a secreção, mas deixa este transportador a funcionar. Uma bebida com sódio e glicose é, por isso, absorvida mesmo enquanto o intestino perde líquido, e em quantidade suficiente acompanha as perdas.
A água sozinha não traz sal, por isso não chega para repor as perdas, e em grandes quantidades dilui o sódio que resta no sangue. As bebidas doces, como refrigerantes ou sumos de fruta, têm açúcar a mais e sal a menos. O açúcar em excesso fica no intestino e puxa água para lá, o que agrava a diarreia. A fórmula de osmolaridade reduzida, recomendada pela OMS no início dos anos 2000, tem menos sódio e glicose do que a primeira. Em crianças com diarreias que não são cólera, reduziu o volume das fezes entre um quinto e um quarto, consoante o estudo, e os soros não previstos em cerca de um terço.
Como se produz e se usa
Esta secção descreve como os sistemas de saúde fornecem os SRO e ensinam a usá-los. Não é uma receita caseira.
Saquetas industriais. As fábricas farmacêuticas misturam glicose purificada, cloreto de sódio, cloreto de potássio e citrato trissódico segundo a fórmula da OMS e selam o pó seco numa folha à prova de humidade; cada saqueta corresponde a um volume de água indicado. Em 2024, só a UNICEF entregou 29,2 milhões de saquetas a 56 países, muitas vezes embaladas com comprimidos de zinco, por bem menos de um dólar por tratamento.
Uma agente de saúde mostra a uma mãe como esvaziar a saqueta inteira no volume de água potável impresso nela.
Ensinar as famílias. No centro de saúde ou numa visita domiciliária, um agente de saúde mostra aos pais como dissolver uma saqueta no volume exato de água potável impresso nela, fervida e arrefecida se a origem for duvidosa. A solução dá-se em goles pequenos e frequentes, por chávena ou colher, mais devagar se a criança vomitar, e o que sobra ao fim de um dia deita-se fora. A amamentação e as refeições habituais continuam. A OMS recomenda ainda, para as crianças com diarreia, zinco durante 10 a 14 dias, que encurta o episódio e reduz o risco de outro pouco depois.
Uma prega de pele que leva dois segundos ou mais a desaparecer é um dos sinais de desidratação grave.
Reconhecer a desidratação. Os profissionais procuram agitação, olhos encovados e sede intensa, sinais de alguma desidratação. Uma criança com pelo menos dois dos sinais seguintes está gravemente desidratada: letargia ou inconsciência, olhos encovados, incapacidade de beber ou beber mal, e pele beliscada que volta muito devagar. Estes doentes, e qualquer pessoa em choque, recebem primeiro soro intravenoso numa unidade de saúde e depois continuam com SRO.
Quando procurar ajuda de imediato. Ensina-se aos pais a voltar logo se a criança ficar sonolenta, deixar de conseguir beber, vomitar sem parar, tiver sangue nas fezes, passar muitas horas sem urinar ou não melhorar. Os bebés muito pequenos e as crianças desnutridas precisam de um profissional de saúde desde o início.
Segurança. Use saquetas de SRO já preparadas, dissolvidas exatamente no volume de água potável indicado na embalagem. Pó a mais torna a solução perigosa, água a mais torna-a menos eficaz. Se não houver saqueta à mão, continue a dar água potável, caldo ou leite materno, evite bebidas muito doces e procure cuidados de saúde. Os SRO não substituem os cuidados médicos: a desidratação pode matar uma criança pequena em poucas horas, e quem mostrar sinais de perigo deve ser levado sem demora a uma unidade de saúde.
História e evolução
Em 1832, em Leith, perto de Edimburgo, Thomas Latta seguiu uma sugestão de William O’Shaughnessy e injetou água salgada nas veias de moribundos. Alguns recuperaram, mas Latta morreu no ano seguinte e o método ficou esquecido durante meio século.
As injeções de Latta exigiam uma seringa, uma veia e um médico à cabeceira.
Nos anos 1960, o soro intravenoso, aperfeiçoado pelo médico da Marinha dos Estados Unidos Robert Phillips, baixou a mortalidade da cólera para menos de 1%, mas exigia líquido estéril, agulhas e pessoal treinado. Em Daca, então no Paquistão Oriental, e num centro da Universidade Johns Hopkins em Calcutá, investigadores experimentaram glicose e sal pela boca. Em 1968, Norbert Hirschhorn mostrou que a glicose reduzia a perda líquida de fezes, e David Nalin e Richard Cash relataram que os doentes que tomavam a bebida precisavam de menos 80% de soro intravenoso. A estampa adota 1968 como data.
Durante a guerra de 1971, a cólera rebentou entre os refugiados do Paquistão Oriental perto de Bongaon, na Índia. Com o soro intravenoso escasso, a equipa de Dilip Mahalanabis reservou-o para os casos mais graves e tratou os restantes pela boca. Dos 3703 doentes admitidos no seu centro morreram 3,6%, quando no início do surto a cólera matara quase 30% dos atingidos. O relatório só foi publicado em 1973.
A OMS e a UNICEF acordaram uma fórmula única em 1975, e em 1978 The Lancet chamou à descoberta o avanço médico potencialmente mais importante do século. De 1980 a 1990, a organização bangladeshiana BRAC enviou agentes de porta em porta para ensinar a mais de 12 milhões de mães uma bebida caseira de sal e açúcar não refinado. A OMS recomendou uma fórmula de osmolaridade reduzida no início dos anos 2000, e uma declaração conjunta com a UNICEF promoveu-a em 2004 juntamente com o zinco.
As estimativas de crianças salvas vão de mais de 50 milhões entre 1982 e 2007 a mais de 70 milhões até 2019, embora a água potável, o saneamento e as vacinas também tenham contribuído.