Curtimento do couro
Peles, casca de carvalho e meses no tanque
- 1Cavalete do curtidor
- 2Faca de dois cabos
- 3Pele a ser depilada e descarnada
- 4Caleiro
- 5Camada de casca de carvalho moída
- 6Pele deitada no tanque
- 7Licor tânico
O curtimento transforma uma pele crua, que apodrece depressa quando molhada e seca dura como madeira, num couro maleável que resiste muito melhor à decomposição. No método em tanque, a pele é limpa de pelo e carne e depois fica meses em água com casca de carvalho moída, cujos taninos se fixam às fibras.
O que é
Couro em corte, ampliado: a flor lisa em cima, o emaranhado de fibras de colagénio por baixo. Ao lado, pele crua com o pelo.
Uma pele fresca é sobretudo água e colagénio, uma proteína tecida numa trama densa de fibras. Com calor, começa a apodrecer em poucos dias. Se secar antes, torna-se pele crua, dura e córnea, que amolece na água e apodrece se continuar molhada.
O couro é uma pele cujas fibras foram alteradas para resistir a ambas as coisas. Pode molhar-se e secar com muito menos risco de apodrecer ou endurecer, corta-se, cose-se e molda-se, e guardado em seco dura séculos. Fazia-se com ele calçado, arreios, baldes e foles. Os caçadores amaciavam as peles com gordura e fumo, mais tarde usou-se o alúmen, e hoje quase todo o couro é curtido com sais de crómio. Esta prancha segue o método que serviu na Europa e no Mediterrâneo durante uns dois mil anos: o curtimento vegetal com casca, em tanques.
Como funciona
Muitas plantas acumulam taninos, compostos amargos que as protegem de insetos e fungos. A casca de carvalho é rica neles, tal como a madeira de castanheiro, as folhas de sumagre, as galhas do carvalho e as vagens de acácia. A casca moída de molho em água dá um líquido castanho a que os curtidores chamavam licor tânico.
Nesse licor, as moléculas de tanino infiltram-se entre as fibras de colagénio de uma pele limpa e prendem-se a elas em muitos pontos. Assim revestidas, as fibras deixam de colar umas às outras ao secar e as bactérias degradam-nas muito mais devagar. A pele torna-se um couro firme e castanho.
O tanino entra pela superfície. Um licor forte logo de início fecharia as camadas exteriores e deixaria o miolo cru. Por isso as peles começavam num licor fraco, já usado, e passavam para licores mais fortes ao longo de semanas e meses.
Antes, é preciso abrir a pele. A água de cal ou uma lixívia de cinza de madeira faz a pele inchar, solta as raízes do pelo e retira parte da gordura e das proteínas moles. Depois raspam-se o pelo e a camada superficial e limpa-se o lado da carne, para o tanino entrar pelas duas faces.
Como se constrói
Eis, em linhas gerais, o método tradicional com casca dos curtumes, aplicado a uma única pele de vaca; não é uma receita testada. Conte com quase um ano. Precisa da pele de um animal saudável e de origem conhecida, de tinas ou barris estanques, cal apagada ou cinza de madeira, muita casca de carvalho seca, um cavalete de madeira e uma faca romba de dois cabos.
Demolhar e caleirar. Deixe uma pele salgada em água limpa um ou dois dias até ficar mole e depois ponha-a em água com cal apagada ou lixívia de cinza, mexendo todos os dias. A pele está pronta quando o pelo se solta com o polegar.
Depilar e descarnar. Estenda a pele sobre o cavalete inclinado, com o pelo para cima, e empurre a faca romba para longe de si para arrancar o pelo. Vire-a e raspe o lado da carne até tirar gordura e membranas. Lave a cal em várias águas, porque a cal que fica na pele estraga o curtimento; o licor fraco e ligeiramente ácido da etapa seguinte leva o resto.
A casca de carvalho tira-se na primavera, quando a seiva a solta da madeira.
Preparar a casca. Descasque carvalhos abatidos na primavera, seque a casca, moa-a e deixe-a de molho vários dias.
Curtir no tanque. Ponha primeiro a pele num licor fraco e mexa-a todos os dias durante algumas semanas. Depois deite-a estendida ou dobrada numa tina, entre duas camadas de casca moída, e cubra-a com licor mais forte. Os curtumes empilhavam assim muitas peles no mesmo tanque. Renove casca e licor de poucos em poucos meses. Na J & F J Baker, no Devon, último curtume tradicional de casca de carvalho da Grã-Bretanha, as peles passam três meses no licor e mais nove empilhadas com casca. Para verificar, corte uma lasca da parte mais grossa: o couro está curtido quando o castanho atravessou toda a espessura, sem faixa clara no meio.
Secar e engordurar. Enxague, deixe secar devagar à sombra e faça penetrar óleo ou sebo enquanto o couro ainda está húmido.
Segurança. A cal e a lixívia de cinza são cáusticas e podem queimar a pele e os olhos. Use luvas impermeáveis, óculos de proteção e botas, e prefira cal apagada a cal viva, que aquece violentamente em contacto com a água. Lave logo com muita água um salpico na pele; se entrar cal num olho, lave-o sem parar com água limpa e procure ajuda médica imediata. As peles cruas podem trazer esporos de carbúnculo (antraz), que entram pelos cortes ou se respiram com o pó e causam doença grave; não se vê a olho nu se uma pele está contaminada. Use apenas peles de animais inspecionados e de origem conhecida, nunca de um animal encontrado morto, tape os cortes, não sacuda nem bata peles secas e lave as mãos e a roupa depois do trabalho. Se pensa ter sido exposto, ou se depois de trabalhar com peles surgir uma ferida, febre ou dificuldade em respirar, vá logo ao médico e diga que manuseia peles. Os banhos de cal e os licores tânicos poluem: guarde-os em tinas estanques, longe de poços, nascentes e ribeiros, e nunca despeje o licor usado no solo, em esgotos ou na água; leve-o a um ponto de recolha adequado.
História e evolução
Muito antes dos tanques, as peles eram esticadas, raspadas, trabalhadas com gordura e fumadas.
As peles eram preparadas muito antes de serem curtidas. Em muitas regiões, os caçadores esfregavam miolos ou outras gorduras numa pele raspada e depois fumavam-na, para que pudesse molhar-se sem endurecer. Ötzi, que morreu nos Alpes por volta de 3300 a.C., vestia peles de cabra, ovelha, veado e vitelo, e um sapato da gruta de Areni-1, na Arménia, datado de 3627–3377 a.C., parece ser de couro de vaca. Não se sabe ao certo como foram tratados.
Datar o curtimento vegetal é difícil: só a análise química revela como foi tratado um couro antigo, e os especialistas leem os resultados de maneira diferente. Carol van Driel-Murray nota que os couros da Idade do Bronze eram quase sempre tratados com gordura, óleo ou fumo. No entanto, a análise de couros egípcios do Metropolitan Museum, publicada em 2017, encontrou taninos vegetais em objetos do Império Médio ou Novo, entre cerca de 2000 e 1100 a.C. O botânico grego Teofrasto escreveu sobre plantas tanantes por volta de 300 a.C., e no noroeste da Europa o couro curtido chega com a conquista romana. Em Pompeia, um curtume com quinze cubas cilíndricas ainda trabalhava quando a erupção de 79 d.C. o soterrou.
O curtimento ao alúmen, que usa um sal mineral em vez de tanino, dava um couro claro e macio, apreciado para luvas, mas a água arrasta o alúmen e a pele pode voltar a secar dura. O curtimento em tanque pouco mudou até ao fim do século XIX, quando os sais de crómio reduziram o trabalho de meses para dias. O curtimento ao crómio é um processo industrial com resíduos tóxicos, não um ofício caseiro. Ainda se faz couro curtido com casca para selas, cintos e solas.