Pólvora

O explosivo das armas de fogo e das minas

Data
c. 850
Época
Idade Média
Etapa
III Ofícios e cidades
Dificuldade
Legenda
  1. 1Edifício do moinho
  2. 2Roda hidráulica
  3. 3Talude arborizado entre os edifícios
  4. 4Barril de pólvora com aros de cobre
  5. 5Polvorinho de chifre
  6. 6Cristais de salitre

A pólvora, ou pólvora negra, é uma mistura de salitre, carvão vegetal e enxofre que arde muito depressa, libertando gás quente e uma nuvem de fumo feita de partículas sólidas. Alquimistas chineses depararam com ela no século IX e, nos quinhentos anos seguintes, tornou-se a carga propulsora de foguetes, armas de fogo e canhões, e depois uma ferramenta das minas e das grandes obras.

O que é

A pólvora é o explosivo químico mais antigo que se conhece. É um pó negro ou cinzento-escuro feito de três substâncias: salitre (nitrato de potássio), carvão vegetal e enxofre. A maior parte dos combustíveis precisa do ar para arder, mas a pólvora traz consigo o seu próprio oxigénio e, por isso, arde num espaço fechado. Numa fração de segundo, grande parte da sua massa transforma-se em gás quente, e a pressão desse gás pode expulsar uma bala do cano de uma arma ou fender a rocha.

Até ao século XIX foi o único explosivo de uso corrente e a carga propulsora de todas as armas de fogo. Hoje chama-se pólvora negra, para a distinguir das pólvoras sem fumo que a substituíram nas armas de fogo a partir da década de 1880. Continua a usar-se no fogo de artifício, nos rastilhos, nas armas de antecarga e em algumas pedreiras.

A prancha mostra uma fábrica de pólvora do século XVIII vista de fora. Os moinhos erguiam-se muito afastados uns dos outros ao longo de um rio que lhes fazia girar as rodas, separados por taludes de terra e árvores, para que uma explosão num deles tivesse menos probabilidade de chegar ao seguinte. No Brandywine, no Delaware, muitos tinham três paredes grossas de pedra e um telhado e uma fachada leves do lado do rio, para que o sopro de uma explosão saísse por cima da água. Ao lado da cena estão um barril com aros de cobre, escolhido porque o cobre faz faíscas com muito menos facilidade do que o ferro, um polvorinho de chifre, em que soldados e caçadores levavam a pólvora, e cristais de salitre.

Como funciona

Arder é uma reação entre um combustível e o oxigénio. Numa fogueira de lenha, o oxigénio vem do ar, e o fogo só pode avançar tão depressa quanto o ar chega à madeira. Na pólvora, o oxigénio está no salitre, intimamente misturado com o combustível. Quando a pólvora aquece, o salitre decompõe-se e liberta o oxigénio junto às próprias partículas de combustível, e a reação não fica à espera do ar.

Cada ingrediente tem a sua função. O salitre é o oxidante e constitui a maior parte da massa. O carvão vegetal é o combustível principal; como é poroso, uma pequena quantidade oferece uma grande superfície ao oxigénio. O enxofre também é combustível, mas conta sobretudo porque baixa a temperatura a que a mistura se inflama e a faz arder mais depressa. A pureza do salitre e a espécie de árvore de que vinha o carvão mudavam o comportamento de uma pólvora, e por isso os polvoristas tinham tanto cuidado com os dois.

Os produtos são em parte gases, sobretudo dióxido de carbono, azoto e monóxido de carbono, e em parte sais de potássio sólidos. Pouco menos de metade da massa passa a gás. O resto sai em espesso fumo branco e num resíduo que suja o cano da arma, que tinha de ser limpo com frequência.

A pólvora deflagra: arde muito depressa, mas a reação passa de grão em grão pelo calor. Solta e ao ar livre, arde com um clarão e uma nuvem de fumo. Num cano fechado, o gás não tem por onde sair, a pressão sobe, a pólvora arde ainda mais depressa e o gás empurra o projétil para fora. Os explosivos brisantes, como o TNT ou a dinamite, detonam. Uma onda de choque atravessa-os a vários quilómetros por segundo, mais depressa do que o som se propaga no material, e a reação termina quase de imediato, com um golpe que despedaça. A pólvora dá um impulso mais longo e mais suave. É o que convém a uma carga propulsora, que tem de acelerar uma bala sem rebentar o cano, e é por isso que os canteiros a usaram durante muito tempo para fender e levantar blocos de pedra que a dinamite teria estilhaçado.

Uma faísca, uma chama, a fricção, uma pancada ou a eletricidade estática podem inflamar a pólvora, e muitos operários morreram em explosões de fábricas de pólvora. O fabrico, o armazenamento e o transporte estão sujeitos, em quase todo o lado, à legislação sobre explosivos.

História e evolução

Os alquimistas chineses da dinastia Tang aqueciam salitre, enxofre e muitas outras substâncias à procura de elixires de longa vida. Um texto taoista, geralmente datado de meados do século IX, adverte os alquimistas contra certas misturas com salitre: alguns, depois de as aquecerem, tinham queimado as mãos e a cara, e até a casa. Os historiadores discutem se um texto anterior, de 808, já descreve uma mistura semelhante. A mistura acabou por receber o nome de huoyao, «remédio de fogo».

Uma lança de fogo da dinastia Song: um tubo de bambu atado com cordel a uma lança de madeira, perto da ponta de ferro A lança de fogo, um tubo de pólvora preso a uma lança, lançava chamas durante alguns segundos a curta distância.

Os exércitos chineses não tardaram a levá-la para a guerra. O Wujing Zongyao, um compêndio militar concluído em 1044, descreve armas incendiárias e de fumo e contém as fórmulas escritas mais antigas que se conservam. Um estandarte de seda de Dunhuang, pintado em meados do século X, mostra uma lança de fogo, e as tropas Song usaram lanças de fogo no cerco de De’an, em 1132. No século XIII, os defensores Jin e Song lançavam do alto das muralhas bombas de pólvora contra os exércitos mongóis que os cercavam, e o tubo da lança de fogo passou a ser de metal e a levar projéteis. O canhão de mão em bronze encontrado na província de Heilongjiang não tem data, mas o local onde apareceu liga-o a combates registados em 1288, o que faz dele uma das armas de fogo mais antigas que chegaram até nós.

Um canhão de mão em bronze do fim do século XIII, com uma câmara bojuda e um encaixe para uma haste As primeiras armas de fogo chinesas eram tubos curtos de bronze presos a uma haste de madeira.

No século XIII, o conhecimento da pólvora espalhou-se para ocidente através do império mongol e do mundo islâmico. No sultanato mameluco, o tratado do sírio Hasan al-Rammah, escrito no final do século XIII, descreve engenhos incendiários e foguetes, e o frade inglês Roger Bacon mencionou a pólvora em 1267. Os primeiros registos e imagens de armas de fogo na Europa datam da década de 1320: em 1326 a cidade de Florença encomendou canhões de metal e respetivas munições, e um tratado que Walter de Milemete escreveu em 1326-1327 para o jovem Eduardo III contém o desenho de um canhão. Vinte anos depois, os ingleses usaram provavelmente algumas peças pequenas na batalha de Crécy. No século XV, a artilharia de cerco conseguia derrubar em poucas semanas as altas muralhas medievais, e os engenheiros militares responderam com muros baixos e grossos e baluartes em ângulo.

Uma velha parede de cave em pedra e terra coberta de cristais brancos e plumosos de salitre, com um raspador de ferro encostado O salitre forma-se devagar onde os resíduos orgânicos apodrecem em solo húmido e, durante séculos, foi raspado de paredes e chãos como estes.

O salitre era o ingrediente difícil de obter. Na Europa, os salitreiros tinham o direito de escavar o chão de estábulos, pombais e caves, e mais tarde os governos criaram nitreiras, onde o salitre se formava em montes de terra e estrume. No século XVII, as companhias de comércio europeias compravam grandes quantidades na Índia, no Guzerate, no Bihar e em Bengala. Em 1775, o químico Antoine Lavoisier tornou-se um dos quatro comissários da nova administração real das pólvoras de França e, a partir do seu laboratório no Arsenal de Paris, trabalhou para melhorar o abastecimento e a qualidade da pólvora francesa. No século XIX, as jazidas de nitrato de sódio do deserto chileno abasteceram as indústrias dos explosivos e dos adubos, até que, no início do século XX, químicos alemães aprenderam a produzir compostos de azoto a partir do ar.

As fábricas de pólvora contavam-se entre os locais de trabalho mais perigosos da era industrial. Os moinhos da família du Pont no Brandywine, no Delaware, abertos em 1802, tiveram 288 explosões e pelo menos 228 mortos antes de fecharem, em 1921. À entrada, os operários eram revistados à procura de fósforos e de metal na roupa e no calçado. A pólvora abriu canais, túneis e minas: um dos registos mais antigos do seu uso para rebentar rocha numa mina vem de Banská Štiavnica, no Reino da Hungria, em 1627. A partir da década de 1870, a dinamite substituiu-a na maior parte dos trabalhos de rebentamento, e as pólvoras sem fumo à base de nitrocelulose tomaram o seu lugar nas armas de fogo nas décadas de 1880 e 1890. Sobrevive no fogo de artifício, nos rastilhos e entre quem dispara armas históricas.


Escreva um nome, uma data, um material, um domínio…