Tingimento

A cor fixada na fibra

Data
c. 4.200 a.C.
Época
Pré-história
Etapa
II Fixação
Dificuldade
Legenda
  1. 1Lume sob a caldeira
  2. 2Caldeira de cobre com o banho de garança
  3. 3Meadas levantadas num pau
  4. 4Cuba de índigo
  5. 5Vara de secagem com meadas vermelhas, azuis e amarelas
  6. 6Raízes de garança e gualda
  7. 7Fibra de lã crua
  8. 8Fibra mordentada e tingida de vermelho

O tingimento põe a cor dentro da fibra: o corante penetra no fio ou no tecido e resiste à lavagem. A maioria dos corantes vegetais, como a garança e a gualda, dá cores mais fortes e firmes com um mordente, quase sempre o alúmen, enquanto o índigo se torna solúvel numa cuba e volta a ficar azul ao ar.

O que é

A tinta de pintar fica à superfície do pano e pode gastar-se; um corante entra na fibra dissolvido em água e lá fica com as lavagens. A maior parte dos corantes vinha das plantas, alguns de insetos e de búzios.

Na lã sem mordente, a raiz de garança, o vermelho clássico, e a gualda, o amarelo clássico, dão cores mais fracas, que desbotam e saem na lavagem com mais facilidade. Os tintureiros fixavam-nas com um mordente, um sal metálico posto primeiro na fibra e ao qual o corante se liga; durante quase toda a história foi o alúmen. O índigo, o azul, não se dissolve de todo em água e tem de ser transformado quimicamente numa cuba antes de poder entrar no fio.

A estampa mostra o pátio de um tintureiro do fim da Idade Média: um banho de garança numa caldeira de cobre (2) sobre o lume (1), meadas levantadas num pau (3), a cuba de índigo (4), fio a secar numa vara (5) e as matérias tintórias (6). O círculo mostra ampliadas uma fibra de lã crua (7), outra tratada com alúmen, ainda pálida, e uma mordentada e tingida (8).

Como funciona

Estudo botânico da garança com as raízes vermelhas, do pastel-dos-tintureiros com folhas verde-azuladas e flores amarelas, e da gualda com a sua alta espiga florida Garança, pastel e gualda: o vermelho, o azul e o amarelo dos tintureiros da Europa.

O vermelho da garança vem de compostos das raízes, sobretudo alizarina e purpurina. Sozinhos dão à lã um laranja mais fraco e baço, que desbota mais depressa. Se a lã ferveu antes em lume brando com alúmen, um sulfato duplo de alumínio e potássio, retém alumínio; no banho de tinta, as moléculas da garança ligam-se a ele e formam um composto colorido que já não se dissolve e fica dentro da fibra. O mordente decide também o tom: a garança dá vermelho com alúmen e castanhos arroxeados com ferro, a gualda amarelo vivo com alúmen e verde-azeitona com ferro.

Uma meada de lã tirada de uma cuba de índigo num pau, ainda verde em baixo e já azul em cima À saída da cuba o fio é amarelo-esverdeado; o ar torna-o azul.

O índigo forma-se a partir de compostos das folhas das anileiras tropicais e, na Europa, do pastel-dos-tintureiros. Numa cuba alcalina sem oxigénio, a molécula azul, insolúvel, é reduzida: ganha hidrogénio e torna-se leucoíndigo, uma forma amarelo-esverdeada e solúvel que embebe a fibra. Fora da cuba, o oxigénio do ar devolve-a a índigo azul, agora preso na fibra. Cada mergulho junta uma camada, e os azuis escuros pedem muitos.

Antes da química industrial, eram bactérias que reduziam o índigo. O pastel ou o índigo ficava ao quente em água com um álcali, barrela de cinza ou cal apagada, e farelo para as alimentar; ao fermentar, consumiam o oxigénio e transformavam o índigo em leucoíndigo. Os verdes obtinham-se tingindo de amarelo por cima de um azul.

Como fazer

Eis as linhas gerais do método tradicional para a lã, não uma receita testada. É preciso fio de lã, alúmen, garança e gualda secas, e panelas de inox ou de esmalte intacto, paus e um termómetro reservados ao tingimento.

Preparar a fibra. Enrolar o fio em meadas soltas, atadas em vários pontos para que o corante chegue a cada fio. Desengordurá-lo em água morna com sabão suave. Meter sempre a fibra molhada e mudar a temperatura devagar: os choques de calor e a fricção feltram a lã.

Mordentar. A Maiwa, fornecedora canadiana de corantes naturais, indica alúmen a 15 % do peso da lã seca. Dissolvê-lo em água quente, juntar a lã, subir devagar até cerca de 90 °C, pouco abaixo da fervura branda, e manter cerca de uma hora. Deixar arrefecer e enxaguar.

Tingir de vermelho ou de amarelo. Pôr de molho a garança picada durante uma noite e aquecê-la depois com cuidado com a lã mordentada durante uma hora ou mais, movendo suavemente as meadas. Para a garança europeia, a Maiwa aconselha ficar abaixo de cerca de 72 °C: mais quente, o vermelho puxa para o castanho. A gualda fica de molho uma noite, aquece-se e coa-se; a lã mordentada passa depois cerca de uma hora nesse banho, também abaixo de cerca de 71 °C, porque o calor a mais apaga o amarelo. Deixar arrefecer no banho escurece o tom.

Tingir de azul. Uma cuba tradicional de pastel ou de índigo, montada com álcali e farelo, era mantida ao quente durante dias, até o líquido amarelo-esverdeado mostrar uma película acobreada e espuma azul. O fio entra molhado e devagar, sem salpicar, porque o ar estraga a cuba; ao fim do tempo que o método indicar, muitas vezes de 20 minutos a uma hora para a lã, tira-se, espreme-se, deixa-se azular e volta a mergulhar-se. As cubas de hoje usam outros redutores, e a lã pede um banho menos alcalino do que o algodão (a Maiwa indica pH 9 a 10 contra 11 a 12): seguir um método testado escrito para lã e verificar o pH.

Enxaguar e lavar. Depois da garança ou da gualda, deixar arrefecer o fio no banho, enxaguá-lo com cuidado até a água sair limpa e secá-lo à sombra; só mais tarde lavá-lo com sabão suave. Depois do índigo, deixar o azul desenvolver-se por completo ao ar, enxaguar em água limpa e pôr depois o fio de molho em vinagre diluído para neutralizar o álcali que fica na lã. Lavá-lo no fim e verificar que não larga azul num pano branco.

Segurança. Os banhos quentes escaldam: pôr a panela num lume ou fogareiro estável, longe de crianças e animais. O alúmen é irritante e não deve ser engolido; os sais de ferro são nocivos em solução concentrada. A cal apagada e a barrela queimam a pele e os olhos, a barrela ataca também as panelas de alumínio, e os redutores podem libertar vapores tóxicos, sobretudo com ácidos: usar óculos e luvas e guardá-los secos e rotulados. As cubas em fermentação libertam gases malcheirosos: trabalhar ao ar livre ou com boa ventilação. Nunca usar panelas nem utensílios de cozinha, nem devolver à cozinha o material de tingir. Os mordentes de crómio e de estanho, correntes no passado, são tóxicos: não os usar. Os banhos gastos não são inofensivos: os de mordente ou de ferro e as lamas da cuba contêm sais metálicos ou álcali. Nunca os despejar em ribeiras, poços ou sarjetas; perguntar ao serviço local de resíduos como os eliminar.

História e evolução

Na gruta de Dzudzuana, na Geórgia, camadas com mais de 30 000 anos continham fibras coloridas que os escavadores interpretam como linho tingido com plantas locais; o tingimento é uma interpretação, e a identificação como linho foi contestada.

O índigo mais antigo conhecido, identificado por análise química, tinge um algodão de Huaca Prieta, no Peru, com cerca de 6200 a 6000 anos. A garança mais antiga confirmada colore uma aljava egípcia de couro de cerca de 2124–1981 a.C.

Conchas de búzios-de-tinta do Mediterrâneo, uma partida, ao lado de uma meada de lã púrpura Cada búzio dava apenas umas gotas de corante; tingir para o comércio exigia muitos milhares.

Os búzios davam a púrpura associada a Tiro: montes de conchas esmagadas atestam a sua produção em Creta no início do II milénio a.C. e em Ugarit, na Síria, nos séculos XV e XIV a.C. O quermes, uma cochonilha do carrasco, dava um carmesim; a cochonilha americana, chegada à Europa no século XVI, foi-o substituindo.

Na Idade Média, os tintureiros juntaram-se em corporações que guardavam as receitas e vigiavam a qualidade; a de Londres, registada em 1188, recebeu em 1471 uma carta que lhe permitia inspecionar oficinas e multar o mau tingimento.

Em 1856, William Henry Perkin, estudante londrino de 18 anos que tentava fabricar quinino, obteve a partir de derivados do alcatrão de hulha a mauveína, o primeiro corante sintético com êxito comercial. Em 1868, Carl Graebe e Carl Liebermann sintetizaram a alizarina, e o cultivo da garança declinou depressa; Adolf von Baeyer publicou uma síntese do índigo em 1880, e a BASF lançou-o no mercado em 1897.


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