Domínio do fogo
Luz, calor e cozinha
Prancha
- 1Pedras da lareira
- 2Lenha
- 3Arco
- 4Fuso
- 5Peça de apoio
- 6Tábua de base e entalhe
- 7Ninho de isca
Anatomia
Dominar o fogo é saber mantê-lo aceso, transportá-lo e, por fim, acendê-lo à vontade. Os antepassados humanos já usavam o fogo há pelo menos um milhão de anos, e ele dava-lhes calor, luz, proteção e comida cozinhada.
O que é
O fogo é uma reação química: um combustível combina-se com o oxigénio do ar e liberta calor e luz. Dominá-lo foi uma aprendizagem por etapas. Primeiro, guardar um fogo aceso pela natureza, depois de um raio ou de um incêndio no mato. Depois, transportá-lo e alimentá-lo durante dias. Por fim, acendê-lo sempre que fosse preciso.
O fogo aquece durante a noite e permite viver em regiões mais frias. Ilumina as grutas, afasta os animais, endurece as pontas das lanças de madeira e cozinha os alimentos. A carne e os tubérculos cozinhados ficam mais macios e fornecem mais energia na digestão do que crus.
Como funciona
Um fogo precisa de três coisas ao mesmo tempo: combustível, oxigénio e calor suficiente para manter a reação. Se faltar uma, apaga-se.
A madeira não arde diretamente. O calor decompõe-na primeiro em gases inflamáveis e deixa carvão. Os gases ardem na chama, por cima da madeira, e o carvão brilha em baixo. É por isso que se monta um fogo do mais pequeno para o maior: os gravetos finos e secos aquecem depressa, libertam gás e levam os ramos mais grossos à temperatura certa.
O sílex batido contra a pirite solta faíscas quentes o bastante para pôr a isca seca em brasa.
Há duas maneiras tradicionais mais comuns de fazer fogo. Os métodos de fricção esfregam uma madeira contra outra até se juntar um pó de madeira fino e quente que começa a brilhar. O berbequim de mão roda um pau entre as palmas; o berbequim de arco, desenhado na prancha, faz o mesmo com um cordão enrolado no fuso, mais depressa e com menos esforço. Esse pó incandescente é uma brasa. Pousada num ninho de erva seca e casca desfiada e soprada com cuidado, transforma-se em chama.
Os métodos de percussão produzem faíscas. Quando a aresta dura de um sílex bate na pirite, arranca grãos minúsculos do mineral, que ardem no ar. Sílex contra sílex quase não dá nada. As faíscas são pequenas e breves, por isso precisam de uma isca que pegue com facilidade, como a camada interior do fungo-isca, seca e batida até ficar macia e fofa.
Como fazer
No berbequim de mão, as palmas rodam um pau para um lado e para o outro até a serradura do entalhe começar a brilhar.
O berbequim de arco é o método de fricção mais fiável para aprender. É preciso uma faca ou uma lasca de pedra afiada, um cordão e madeira seca, morta e semimacia, como salgueiro, tília, choupo ou cedro.
Preparar a lareira. Escolher chão nu e plano, longe de ramos baixos e de erva seca. Limpar de erva, folhas e gravetos um círculo com uns três metros de diâmetro e rodear a cova com pedras. Juntar tudo antes de começar: dois punhados de isca, um molho de gravetos finos como um lápis e depois paus da grossura de um polegar e de um pulso.
Talhar o equipamento. O fuso é um pau direito com cerca de 20 cm e a grossura de um polegar, arredondado em cima e rombo em baixo. A tábua de base é uma peça plana com cerca de 2 cm de espessura. A peça de apoio é um bocado de madeira mais dura ou uma pedra do tamanho da palma, com uma pequena cavidade na face de baixo; um pouco de gordura ou uma folha verde nessa cavidade impede que a ponta de cima do fuso aqueça. O arco é uma vara rígida e ligeiramente curva, do comprimento do braço, com o cordão apenas frouxo o suficiente para dar uma volta ao fuso; depois de enrolado, tem de o apertar com firmeza.
Queimar a cavidade e abrir o entalhe. Furar uma cavidade pouco funda perto da borda da tábua até ficar negra e depois cortar um entalhe em V da cavidade até à borda, com cerca de um oitavo do círculo. Pôr um bocado de casca debaixo do entalhe para recolher o pó.
Furar. De joelhos, com um pé em cima da tábua e o pulso que segura a peça de apoio encostado à canela, carregar com firmeza na peça de apoio e mover o arco em passagens longas e regulares. Acelerar quando a cavidade fumegar. Quando o entalhe estiver cheio de um pó escuro que continua a fumegar sozinho, a brasa está feita.
Fazer nascer a chama. Despejar a brasa no ninho de isca, fechá-lo e soprar devagar até pegar fogo. Pousá-lo na cova, encostar gravetos por cima em forma de cone e só juntar lenha grossa quando os gravetos estiverem a arder bem.
Segurança. Em erva seca ou com vento, o fogo corre mais depressa do que uma pessoa. Nunca acender fogo em período de seca, de proibição ou com vento forte, e ter água ou terra solta à mão. Não rodear a cova com seixos de rio molhados: a água presa pode fazê-los rebentar. Nunca deixar um fogo sozinho. Para o apagar, encharcá-lo, mexer as cinzas e voltar a encharcá-lo até tudo, incluindo as brasas enterradas, estar frio ao toque. Praticar só ao ar livre: um fogo aberto num abrigo ou numa gruta enche o ar de fumo e de monóxido de carbono, que podem matar.
História e evolução
Os vestígios de fogo mais antigos e bem estabelecidos num contexto humano vêm da gruta de Wonderwerk, na África do Sul. Em 2012, uma equipa encontrou ali cinza microscópica e ossos queimados em camadas com cerca de um milhão de anos, junto de utensílios de pedra acheulenses, provavelmente feitos por Homo erectus. Um estudo publicado em 2026 identificou ossos queimados mais abaixo na mesma sequência, em camadas datadas de 1,07 a 1,79 milhões de anos, a cerca de 30 metros para o interior da gruta, onde nenhum incêndio natural podia chegar. Indícios mais antigos no Quénia, por volta de 1,5 milhões de anos, assentam em solos avermelhados que um fogo natural também poderia explicar.
Os arqueólogos leem os fogos antigos em corte: cinza e carvão por cima de uma terra avermelhada pelo calor.
Em Gesher Benot Ya’aqov, em Israel, sementes, madeira e concentrações de sílex queimado sugerem fogos mantidos em locais fixos há cerca de 790 000 anos. As lareiras bem definidas só se tornam frequentes entre há cerca de 400 000 e 300 000 anos, em África, no Próximo Oriente e na Europa. Até lá, as pessoas provavelmente recolhiam o fogo de incêndios naturais e mantinham-no vivo.
A prova mais antiga de acender fogo vem de Barnham, no Suffolk (Inglaterra), e foi publicada em 2025. Há cerca de 400 000 anos, alguém aqueceu ali repetidamente a mesma mancha de argila acima de 700 °C. Ficaram bifaces estalados pelo fogo e dois pedaços de pirite, um mineral tão raro naquela paisagem que terá sido levado para ali de propósito. O recorde anterior, em sítios neandertais do norte de França, tinha cerca de 50 000 anos.